Chuck Norris morreu
Um resumo para não precisar ver nenhum filme dele
Chuck Norris morreu.
Pra quem viveu a internet quando meme ainda era mato, sabe que lá pra 2010 existiam 3 piadas dominantes: bacon é a melhor comida do mundo, Justin Bieber é o pior ser humano da história e Chuck Norris é incrível.
Claro que eu não to falando aqui que eram os únicos memes na face da terra. Mas o fato deu enumerar eles tão rápido acho que ajuda a reforçar que eles tavam lá quando a maioria do povo ainda nem sabia o que essa palavra significava. Esses três eram tipo os três pokémons iniciais que você escolhe no começo do jogo, sendo cada um meme esquecido.
Aliás, tem uma coisa que sempre acho meio engraçada, meio curiosa na origem dessa palavra. Meme, pra quem não foi buscar conhecimento, saiu de um livro do Richard Dawkins: O Gene Egoísta. E era algo um pouco diferente do que se pensa hoje. Vou te salvar a ida no ChatGPT e explicar rápido.
Uma unidade genética é passada entre gerações como forma de manter viva a estirpe. É aquela coisa que define a cor dos seus olhos, tipo sanguíneo e quem é o pai no programa do Ratinho. Além de outras coisas menos relevantes.
Porém, de maneira mais geral, passamos ideias, histórias, músicas e piadocas. Esse tipo de coisa não vem pronta e embalada quando nascemos, mas ainda assim, aprendemos. É tipo a piada do tio do pavê, uma tocha carregada entre diferentes gerações.
Eu não sei bem e, honestamente, não ligo pra saber como a gente passou dessa ideia pra usar isso como referência pra foto de gato fofo. Dá pra imaginar o caminho, só não tenho certeza.
O que importa é que o termo foi completamente deslocado e hoje ta aí, na boca de muita gente que nunca nem abriu o livro lá. Tal qual um meme.
Isso nos leva ao tema central desse texto. Chuck Norris morreu.
Morreu o imorrível. No início das redes sociais, ficou imortalizado por seus grandes feitos absurdos, como ao dizer que colheu uma maçã de um pé de laranjas e usou ela pra fazer limonada. Longe de mim chamar de mentira.
Muita gente que perpetuou suas lendas nunca viu um filme sequer do moço. É uma devoção meio teórica. Tipo quem se declara seguidor do estoicismo. Não sei se era medo de verem homem como uma figura real e menos mística ou talvez só não queria ser confundido com um tiozão reaça que vive do passado, público-alvo dos filmes. Sei lá, talvez fosse só preguiça.
Mas aqui a gente não deita pra preguiça. E se tem uma coisa que adoro ocupar minhas tardes livres, são filmes velhos irrelevantes. Numa dessas, acabei por ver uns filmes do grande Chuck Norris. E falo com tranquilidade, o valor de estudo social nos filmes dele é imensurável.
Muita gente usa esse cinema de ação velho para dizer como “antes que era bom”, que os filmes antigamente não se preocupavam com política, não tinham agenda. Era essa folha em branco, tão lisa quanto meu cérebro depois de maratonar 3 temporadas de Ilhados com a Sogra.
E sempre achei que essa informação, sobre os filmes serem “insentões”, coisa de quem nunca pegou um desses pra ver. Tal qual quem produziu os memes. Porque se tem uma coisa que ta presente nesses filmes até o talo, é política.
Então, vou fazer aqui meu dever cívico. Vou explicar uns três filmes do Chuck Norris para você entender o que exatamente eram os filmes dele. Assim, você se garante numa conversa de bar e, com sorte, não precisa ver nenhum.
Filme de ação sempre teve ideologia. SEMPRE. Sem eufemismo. Em 1939, isso já tava lá. Em Stagecoach, um filme de 39 sobre uma diligência sendo atacada por um grupo de guerreiros nativos renegados é prova disso. O filme é tão político que é dirigido pelo John Ford e estrelado por John Wayne. E se você não sabe o que isso quer dizer, uma história:
Quando Marlon Brando ganhou o Oscar por Poderoso Chefão, ele decidiu não ir buscar. Ao invés disso, mandou uma representante dos povos originários para pegar o prêmio e fazer um discurso em defesa dos povos originários.
Até ia tudo ok. Mas, John Wayne, que fez sua vida atirando em povos nativos, ficou tão puto que queria avançar pra cima do palco e retirar a moça de lá por qualquer meio que fosse.
Ele tava puto num nível que o Oscar só foi ver de novo quando Will Smith desceu a mão no Chris Rock.
Só isso já bastaria para defender minha tese. Stagecoach é 90% da ação é gente branca atirando em índio, os quais não falam nada. Tão lá só pra morrer.
Ainda assim, é um grande filme, mesmo eu discordando ideologicamente de cada segundo dele. Maior parte do que a gente entende como filme de ação veio dali.
A sequência de filmes de ação com ideologia nunca parou. Eventualmente, ela se converteu do ódio aos indígenas para uma raiva mais generalizada. Pra que se limitar a uma única etnia.
E foi mais ou menos nesse meio que Chuck Norris fez sua fama de macho alfa.
Eu vou abrir um parêntese aqui pra dizer o óbvio. Vi boa parte dos filmes dele na minha adolescência e tenho algum carinho por um ou outro. Meu ponto aqui não é um pedido para queimar as cópias de DVDs em praça pública nem um boicote geral. É mais um apelo para lembrar de sempre consumir com um filtro de senso crítico.
Todo mundo de acordo? Ótimo.
Continuando.
Ou melhor, começando.
Sobre Chuck Norris, eu não faço ideia de qual filme começou toda essa história de mito invencível. Primeiro, porque quem fala dele nunca viu nenhum filme dele. Segundo que qualquer um serviria pra isso. Da pra dizer que a homogeneidade da atuação seja a origem do meme, mas daí qualquer outro herói de ação dos anos 80/90 funciona.
Se for pra escolher um filme que melhor representa a macholência dele, McQuade: O Lobo Solitário.
Pra começar que esse filme foi lançado naquele fim da vida dos Westerns. Quando Eastwood tava fazendo mais Dirty Harry que o pistoleiro sem nome. Os filmes de ação já estavam se passando na cidade. Mas, como toda geração exige uma classe pouco tolerante a mudanças, esse filme se vende com toda uma estética própria de faroeste.
O vilão cospe igual a vilão de faroeste (juro que isso é um ponto relevante na composição do personagem). O próprio Chuck Norris anda sempre de chapéu e usa umas duas versões de uma blusa que eu só consegui achar no Google quando escrevi “John Wayne shirt”. Era literalmente o único resultado que não incluía uma camisa com a cara do John Wayne.
Não é um retro consciente de si, tipo o jovem usando mullet. É mais um saudosismo puramente anacrônico, tipo seu tio usando um porta-celular de cinto.
E essa atitude vem junto daquele pacote de “homem que escolheu viver em seu estado natural, tal qual imaginou John Locke”. Ele está muito ocupado para arrumar seu apartamento. E diz muito o homem idolatrar personagens que acham ok viver em casas desarrumadas. Homens são assim. É quase uma marca de caráter a incapacidade de lavar a louça.
Bom, não todos os homens. Só os homens de verdade. Os lobos solitários que a machosfera escolheu chamar de “sigma” (me odeio por saber isso). O resto vive como cordeiros. Eles ousam ter roupas limpas. São conformados que saíram do pacote “homem que optou por aderir ao pacto social e viver em comunidade, tal como imaginou Thomas Hobbes”.
Parabéns para a fotografia do filme por apontar isso.
Felizmente, tem aqueles que escolhem ver o valor que esse arquétipo traz para o mundo. Especialmente os que são retratados como desfavorecidos. No caso, o México, que nesse filme é representado por um posto de gasolina completamente abandonado, embora perfeitamente funcional.
Por qualquer motivo que seja, quando chega nele, Chuck Norris é tratado como um enviado divino. Tem zero sutileza ao representar ele como “salvador branco”. As pessoas vão se juntando em volta dele, rezando por ele e colocando flores no seu carro. Sendo que, eu juro, a única coisa que ele fez foi abastecer o carro e jogar umas duas moedas para um morador de rua.
Eu sei que nós, homens, costumamos esperar muito depois de fazer o absoluto mínimo, mas até para o nosso parâmetro achei isso meio exagerado.
Curiosamente, essa nem é a única vez que a imagem dele parece uma coisa meio divina. Ele entra já em cena parecendo que ta encenando uma versão texana da ressurreição de Cristo no terceiro dia.
E se você ta se perguntando como isso é político, só pensa em quantas pessoas são eleitas por prometerem retomar os velhos tempos, devolver ao homem seu lugar de direito, acabar com o mimimi.
Não basta para você? Ok, tudo bem. Nessa mesa a gente ta sempre armado de argumentos. Aqui vai mais um então.
Em 84, nosso homem estrelou Bradock: O Super Comando. No filme, ele interpreta um soldado americano que voltou do Vietnã depois de ficar alguns anos como prisioneiro de guerra. E voltou com a certeza de que tinha mais gente nessa situação. A trama, claro, envolve ele voltando lá pra salvar geral.
Notou algo engraçado? Além do roteiro bobo, percebeu que é a mesma história de Rambo 2? Claro que não, né. Ninguém viu Rambo 2. Mas é igualzinho. Só que mais complicado.
Em Rambo 2, ele recebe a missão, vai no Vietnã, mata muita gente e salva a galera.
Braddock tem uma vida mais difícil. Ele vai ao Vietnã, participa de audiências públicas, vai numa missão que parece fase de Splinter Cell, tortura um general por respostas, vai até Bangkok, recruta outro amigo, volta pro Vietnã, entra no campo de prisioneiros errados e só depois acerta e salva o povo.
Na minha opinião, esse filme não tem o mesmo impacto cultural de Rambo porque não percebeu que quem vê esse tipo de coisa entende o ato de pensar muito como uma atividade opcional. E a história desse filme tem tanto desvio que parece Adventure Point & Click da LucasArts, uma coisa meio Grim Fandango.
Pra não dizer que ele não faz nada melhor que o filme do Stallone, gosto de como o protagonista aqui tem um corpo… normal. Não parece alguém que um dia seria pego pela imigração da Austrália tentando entrar no país com esteroides ilegais.
Mas assim, é um produto de ação americano que usa de pano de fundo a guerra do Vietnã. Nunca nada bom foi produzido que pudesse ser definido dessa forma. Dúvida? Joga Call of Duty Black Ops então (veja que falei produto de ação, não limitando a filmes). Melhor, joga não. Um dia escrevo sobre.
O lance é que aqui nem preciso apontar que esse produto escorre política por todo lado. É uma coisa tão genérica que eu te juro que se você colocar os primeiros minutos e falar pra alguém que ta assistindo Trovão Tropical, a pessoa acredita.
Tem um ressentimento meio americano bobo que de alguma forma culpa o Vietnã pelos EUA terem se ferrado naquela guerra. Chuck Norris chega em Ho Chi Minh e se recusa a apertar a mão de um general vietnamita. Sim. O cara chega no país que os Estados Unidos invadiram e, de alguma forma, se sente num pedestal moral a ponto de não querer apertar a mão de um local. Como se errado não fosse o país dele por intervir em uma nação soberana.
Aliás, outra recusa é em chamar a cidade de Ho Chi Minh por esse nome. Eles preferem o nome antigo, Saigon. Afinal, admitir a mudança é dar pontos de vitória pro governo legítimo que estava atuando no país. Mas considerando que acho que quem escreveu esse filme parece o tipo de pessoa que não respeitaria, por exemplo, a escolha de um nome social, isso até faz sentido.
É até engraçado que os únicos nativos que parecem ter algum traço de dignidade são os que o Chuck Norris encontra no primeiro campo de prisioneiros. Não os soldados, mas os prisioneiros. Afinal, aquele povo é tão mal que prende até seus conterrâneos que lutavam para derrubar o governo local (algo que, bom lembrar, os Estados Unidos não conseguiram).
E se retratar um prisioneiro de guerra como alguém digno parece pouco para você, eu te juro, é um avanço enorme em comparação a todo o resto. Porque o resto é bem… ruim.
Comentei que ele vai em Bangkok, né? 90% da cidade, segundo o filme, é casa de prostituição. Os outros 10% são pessoas que, por motivos diversos, querem matar o Chuck Norris. Não dá pra culpar.
Ah, Van Damme é um dos dublês nesse filme. Não acrescenta nada na minha análise, mas eu queria comentar isso em algum lugar.
Do jeito que falei até aqui, faz parecer que não vejo qualidade em nada que esse homem protagonizou. E bom, não é mentira. Mas também não é verdade. E, em respeito aos mortos, vou citar aqui o que seja talvez o filme dele que eu considero “o melhor”.
Claro que “o melhor” deve ser lido em contexto.
E esse é Código de Silêncio.
Se McQuade era o saudosismo do faroeste e Braddock era uma tentativa de reescrever a história por puro revanchismo, Código de Silêncio é um filme policial. Sim, dos mais populares, ele é o que menos tenta ser algo maior que si. E não ter o nome do personagem no título já é um bom começo.
O filme acompanha um policial de cidade grande pego no meio de um conflito violento entre duas gangues rivais. O crime é mal e não perdoa nem familiares que nada têm a ver com isso. E é nessa que Chuck Norris se vê obrigado a proteger a filha de uma das cabeças do conflito.
É uma coisa bem genérica. Policial caçando bandidos e fim. Se parece uma vibe meio Dirty Harry, é porque esse roteiro foi escrito pensando naquela série. Que, aliás, é outra série que sozinha sustenta um textão inteiro que nem esse. Eastwood ta com 95 anos, então talvez isso saia esse ano ainda.
Mas voltando ao filme: diferente do que acontece em todo o resto, esse aqui tem um pouco mais de nuance. Um traquejo menos óbvio. Um dos motivos é que aqui o personagem não se esforça para ser aquela coisa de lobo solitário estoico que não sabe conviver em sociedade. Ele tem um parceiro desde o início do filme, e quando é obrigado a ajudar um novato, ele leva numa boa.
Claro que não da pra esperar que ele não resolva todos os problemas sozinho. Então o filme acha um jeito de isolar ele de toda a ajuda possível. Mas até isso é feito de um jeito… interessante.
No início do filme, durante uma operação, um policial se assusta e acidentalmente atira em um adolescente inocente. Para se livrar disso, ele planta uma arma na mão do jovem morto. Procedimento padrão da polícia.
Mas não para Chuck Norris. Que percebe a armação e testemunha contra durante uma audiência pública. Por não bancar a versão do parceiro de farda, o resto dos oficiais (que não sabiam que era armação) decide não responder aos pedidos de ajuda durante o confronto final do filme.
Sim, ele só age como lobo solitário porque não apoio falcatruas policiais. É clichê e meio óbvio, mas considerando o que foram as outras representações de masculinidade nessa recapitulação, eu to disposto a dar um voto favorável pra isso aqui. É o mínimo. Ninguém discorda. O problema é que nunca antes se chegou nesse ponto.
O que não exclui o fato dele agredir uma pessoa por informação, abrir fogo contra uma rua cheia de pessoas que não têm nada a ver com a situação e apontar uma arma contra a cabeça de um palestrante. De brincadeira, mas repreensível mesmo assim.
Esses deslizes são tão poucos, a truculência é tão branda e a violação de direitos básicos tão baixa que nem parece filme do Chuck Norris. O que talvez seja o maior elogio que eu possa fazer a um filme do Chuck Norris.
Isso tudo dito, sou obrigado a admitir: a roupa de cowboy combina mais com ele do que essa jaqueta de couro.
Existe uma coisa meio óbvia que precisa ser dita. Chuck Norris morreu. O que eu analisei aqui não é a vida da pessoa, mas os personagens que ele interpretou em filmes. Tem que separar a obra do autor.
O problema é que ele escolheu muito especificamente e repetidamente esses papéis. “Ah mas você só listou 3”. Sim, e ainda deixei de fora os piores. Tipo as duas continuações de Braddock ou Invasão aos EUA, o filme que tem literalmente essa capa:
Fica difícil não ver as escolhas de papéis como um reflexo de quem ele era. Em 2024, ele escreveu um artigo prum site de direita clamando que os donos de armas fossem votar. Com um título desses, eu não preciso dizer que era um chamado para votar para um candidato específico.
No meio do texto, ele solta que “Deus e armas são as fundações desse país”. Que é uma frase que pode se traduzir de muitas formas diferentes. Dependendo da etnia de quem lê isso, é uma glória. Para outros, uma tragédia.
Acho que as pessoas que recitaram as piadas sobre Chuck Norris sem nunca verem os filmes também não sabem dessa posição. O campo que ele ocupa, como figura mítica, meio que dispensa a necessidade de saber sobre essas posições.
E ta tudo bem. Ninguém é obrigado a se integrar de cada pequeno meme que compartilha na internet. Às vezes a gente só faz isso porque é engraçado mesmo. É pra rir, não pra problematizar.










