Minha relação com comida nem sempre foi uma coisa muito saudável. Fui uma criança acima do peso e fiz por merecer. Meu descontrole alimentar era algo notável.
Eu era completamente apaixonado por biscoitos, sanduíches, salgadinhos de pacote, minha pirâmide alimentar era, da base ao topo, ultraprocessada.
Na adolescência, isso continuou. Ter 15 anos e ser alvo de piadas todos os dias deixa uma marca nas pessoas. Na época, não tinha uma onda tão forte de aceitação do corpo nem nada do tipo.
Comecei a praticar atividade física diariamente lá pelos 18 anos e não parei desde então. No fim, serviu para eu ter hábitos mais saudáveis. Mas nem de longe vou romantizar o processo. Que nenhuma criança cresça sem nunca usar uma bermuda por vergonha das pernas.
Mas exercitar foi só parte do processo. A parte boa. Teve uma outra negativa. Meu relacionamento com comida também mudou de uma maneira bem ruim.
Não tive nenhum distúrbio alimentar como anorexia ou bulimia. Mas passei a ver a alimentação como algo completamente burocrático. Se antes eu não me importava com quanto de carboidrato e proteína eu colocava no corpo, agora eu só me importo com isso.
Satisfação e alegria não existiam.
Sério, chegou ao ponto de muitas refeições no auge dos meus 25 anos serem literalmente arroz e um frango que eu simplesmente descongelava, jogava na AirFryer e esperava 15 minutos. Não precisava ser gostoso, eu precisava simplesmente suprir as necessidades básicas.
Tem um filme dos anos 70, Soylent Green, que conta sobre uma sociedade distópica no futuro (o futuro no caso era 2022) em que a principal fonte de alimentação é uma barra sem cor e sem sabor, mas que supre todas as necessidades nutricionais de uma refeição.
Não é comida de verdade, é só um conjunto de nutrientes ultraprocessados para atender às necessidades mais básicas do ser humano.
Quando vi esse filme pela primeira vez, lá em 2015, essa parte meio deprimente do futuro me parecia… atrativa.
Em 2017, quando João Doria assumiu a prefeitura de São Paulo, um dos seus projetos incluía distribuir uma farinata para populações vulneráveis (ora falava de distribuir nas escolas, ora para moradores de rua). O produto era feito com sobras de alimento e tinha o objetivo de suprir as necessidades mais básicas.
Imagino o que o Doria responderia, naquele momento, se alguém perguntasse se ele considerou a satisfação e a alegria do público-alvo nessa ideia. Considerando que era um prefeito defendendo uma política, acho que certamente responderia “sim”. Afinal, para quem tem fome, qualquer comida dá satisfação e alegria, ele deveria pensar.
Aliás, o próprio Doria afirmou, em 2007, que “pobre não tem hábito alimentar, pobre tem fome”. Uma resposta na qual, tenho certeza, nenhum pobre foi consultado.
A ideia da farinata pode ser resumida nessa frase do Gyorgy Scrinis, no livro Nutricionismo:
[…], se as populações mais pobres têm acesso inadequado a alimentos e dietas de boa qualidade, então as deficiências específicas de nutrientes podem ser abordadas pelas soluções tecnológicas por meio da fortificação dos nutrientes presentes em seus alimentos básicos, em vez de combater as desigualdades socioeconômicas mais amplas que negam às pessoas uma renda adequada para melhorar a qualidade de suas dietas.
Para além da completa falta de informação sobre como seria produzida e em quais situações seria usada, a ideia da Farinata não agradou. Muita gente chamou de “ração de pobre”, afinal, trata toda a população marginalizada como uma categoria não de gente, mas de bicho, que basta colocar qualquer coisa para comer e que se resolve o problema. Se é bom ou ruim, não importa, até porque eles estão lá para se alimentarem e agradecerem, não para opinar.
Justiça seja feita ao Dória, ele não foi o primeiro a querer colocar produtos ultraprocessados no cardápio escolar. Eles estavam lá nos anos 90, quando uma auditoria da Secretaria Estadual de Educação de Santa Catarina decidiu se aprofundar no tema em nível estadual.
Uma das conclusões era que a suposta eficiência não compensa, já que existe uma rejeição dos alunos para esse tipo de produto, eles acabam por preferir refeições produzidas a partir de alimentos in natura. Um dos motivos é que essa opção permitia que o hábito alimentar na escola fosse semelhante aos praticados na comunidade, gerando uma familiaridade maior.
Aliás, até as merendeiras que preparavam a refeição tinham resistência aos cardápios prontos impostos para as escolas.
E foi por toda essa reflexão que eu, seguindo boa parte da sociedade, achei um absurdo a ideia.
Pressão funcionou e, num raro caso de vitória, a ideia ruim ficou só no papel.
Porém, algo dessa história continuou vivendo em um triplex alugado na minha cabeça. Quem era eu para discordar do João Doria? Eu, que achava que minha alimentação tinha que ser algo funcional, atender às necessidades do meu corpo e se retirar da sala. O quão diferente isso era do que eu considerava como ideia de jerico do prefeito de São Paulo?
Vamos assumir, pelo bem do debate, que a farinata de fato iria suprir as necessidades. Ele literalmente estava criando uma versão do Soylent Green que eu mesmo achava válida. Então, onde está o problema?
Nessa semana, a Unilever, dona de marcas como Dove, Knorr, Lux e metade do que existe num supermercado, adquiriu a Grüns, uma empresa jovem, com apenas 3 anos de existência. Isso valeria uma nota de rodapé em sites de notícia, mas tem um detalhe que a elevou em algumas unidades de importância. A compra foi no valor de US$ 1 bilhão.
Quando se fala de empresa grande, cifras dessa categoria não são exatamente raras. Mas a soma das duas informações resulta numa curiosidade: nunca na história uma empresa atingiu um valor de venda tão alto em um espaço de tempo tão curto. A recordista anterior, rhode, levou 4 anos.
O que essa empresa andou fazendo para justificar um crescimento tão acelerado? Gummys. Daquelas que se compra no caixa da farmácia. Mas não, os ursinhos de goma. São balas funcionais de goma. Das que vêm já com creatina, colágeno e outros ingredientes que são tão atrativos para o consumidor quanto o produto final.
No caso da Grüns, promovem claridade mental, energia, imunidade, alívio do estresse e melhora no sistema digestivo.
A ideia desse tipo de produto é que, além de se alimentar com algo gostoso, você também está jogando dentro do seu corpo recursos desejáveis para otimizar ainda mais a sua saúde. A coisa ter um sabor bom já não basta. O alimento precisava fazer muito mais que alimentar.
Isso não é algo exclusivo da Grüns, outras empresas também fornecem produtos semelhantes. Tem toda uma gama de produtos que vende esse tipo de vantagem estampada na embalagem. O que exatamente constitui essa vantagem varia em maior ou menor grau. Mas eles têm uma coisa em comum: são todos ultraprocessados.
Esse termo está em uso para todo lado. A maioria das vezes, não é uma associação positiva. É aquela coisa que os críticos chamam de “comida de mentira”. Um monte de simulacro que finge ser o que não é. Tipo uma gelatina de abacaxi, que não contém nem um traço da fruta.
Mas definir o que é ou não é pode ser complicado. Em uma entrevista recente com Drauzio Varella, Rita Lobo passa uma receita simples para identificar esse tipo de produto: se, na listagem de ingredientes, você encontrar coisas que não seriam encontradas em uma cozinha típica, é ultraprocessado.
Apesar disso, tem quem defenda esse novo tipo de “comida” como um avanço muito desejável. Como no caso da Grüns e da Unilever, que, se não veem como desejável, no mínimo veem como lucrativo.
Você não só está comendo algo saboroso como ainda está otimizando seu corpo.
Se tudo isso parece algo revolucionário, é preciso voltar algumas casas. Já contaram essa história antes, e dá para dizer que é um discurso mais velho que andar para frente.
Essa ideia de que os alimentos artificiais são desejáveis e até superiores (não dizem com essas palavras, mas querem que você entenda esse sentimento) existe desde que esse tipo de produto passou a ser comercializado. E falo sem nenhum exagero.
Durante a Guerra Civil americana, alguns produtos foram manufaturados para a alimentação do soldado em batalha. Infelizmente, para um soldado, não bastava que a comida alimentasse. A aceitação era muito maior quando a refeição era também gostosa. Uma associação bem natural.
Foi nessa que o leite com doses fortes de açúcar para ajudar no armazenamento caiu nas graças. Depois da guerra, soldados que experimentaram o produto disseminaram seu consumo para o resto do país.
No Brasil, entre o fim do século XIX e o começo do século XX, o produto já era comercializado, inicialmente exportado e depois fabricado nacionalmente. Em 1921, a Nestlé iniciou a produção na fábrica de Araras, em São Paulo.
Na época, porém, o produto tinha um fim bem diverso do atual. Era vendido como um complemento alimentar para crianças. No que é um dos primeiros registros de publicidade alimentar, anunciam:
Essa propaganda foi veiculada em 1922, mais de 100 anos atrás. E, ainda assim, parece muito atual.
(A história dos impactos do leite condensado na sociedade brasileira é incrível. Recomendo fortemente o episódio “A Moça da Lata”, do podcast Prato Cheio.)
A Nestlé, aliás, tem um histórico bem perverso com esse tipo de coisa. Nos anos 70, veio à tona um escândalo que ficou conhecido com o adequado nome “The baby killer”. O cerne do escândalo foi a promoção feita pela Nestlé de fórmulas prontas para alimentação de recém-nascidos.
A ideia era promover esses produtos como essenciais para o crescimento das crianças. Tão essenciais que talvez deveriam ser preteridos em relação ao leite materno. Claro, não falavam com essas palavras, mas implicavam para deixar o consumidor chegar sozinho a essa conclusão.
Isso foi feito tendo como alvo países com baixos níveis de IDH. Assim, mães em regiões que não tinham sequer água potável eram levadas a crer que o ideal para os filhos era a fórmula pronta, e não o leite materno.
Com esse escândalo, a maneira como se divulgam alimentos, especialmente para crianças, foi repensada e passou a ter algum nível de vigilância da sociedade. O que realmente aconteceu, na realidade, foi apenas que as empresas refinaram a maneira como realizam essa propaganda.

A ideia, no final, é o oposto do que se vende nas propagandas contra os ultraprocessados. Aqui, o excesso de industrialização é justamente o que torna esse produto tão atrativo.
É justamente por ser feito em laboratório que esse produto é tão bom para você. Porque é justamente isso que permite que sejam adicionados elementos tão importantes nele. Como, por exemplo, o Gummy de fibras, que ajuda você a suprir sua demanda diária, com um valor nutricional de 5,7 gramas de fibra a cada 3 balinhas. Pouco importa se a lista de ingredientes seja isso:
Afinal, qual seria a opção? Aveia? Que tem 11 gramas de fibras a cada 2 colheres de sopa? E que a lista de ingredientes se resume a um único ingrediente (a saber: aveia)?
Se a quantidade de gorduras totais na tabela nutricional da aveia pode parecer um motivo para optar pelo gummy, converse com um nutricionista. Porque, aliás, o foco sequer deveria ser nesses elementos isolados. Mas sim na comida como um todo, na comida como algo “de verdade”.
A ideia de consumir um produto desses porque, afinal, ele promete te dar um percentual maior de fibras, ou talvez ajudar disponibilizando mais colágeno, são estratégias que buscam alimentar a noção de que o alimento tem uma utilidade muito específica. O propósito não é ter uma refeição balanceada, é apenas marcar uma lista de checkbox de metas a serem cumpridas.
No fim, é a visão do Dória, numa versão mais cara e para um grupo menos socialmente vulnerável. A comida é vista como um agente prestando um serviço para o corpo humano. Para quem tem dinheiro, além do serviço, vem o bônus de ser gostoso e atender demandas mais nichadas.
E, no fim do dia, mesmo a comida que comemos pelo prazer de comer ou atendendo horários de refeições específicas também tem uma função. Não raramente, comemos para saciar a fome. O problema é ver essa função como o único propósito.
Achar que o papel é exclusivamente fornecer um nutriente específico, quase como um remédio, nos torna presas fáceis de uma indústria que se movimenta com um discurso de praticidade, de que a melhor maneira de suprir uma demanda é com algo mais próximo de um pedaço de plástico que de um alimento.
Essa ideia é um dos pilares da indústria de ultraprocessados: a de que a comida precisa ser útil. Assim como pouco importa o processo de fabricação da farinata, pobre tem que comer e agradecer.
E é por isso que, talvez, uma das maneiras mais claras de se opor a isso, é comer uma comida de verdade, sem muitos exageros, mas sem pensar em quanto de proteína e quanto de carboidrato estão indo em cada garfada.
Não sou contra contar os macros, entendo muita gente querer bater a meta diária de proteína. Mas, com exceção de carreiras específicas, como atletas esportivos, para a grande maioria o caminho para isso é ter uma dieta balanceada que se parece muito mais com um prato de arroz e feijão do que uma tigela de cereais matinais com alto índice de proteína.
A classificação que segmenta parte dos alimentos como ultraprocessados foi desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP. É parte de uma classificação chamada de Nova, que parte da hipótese de que alguns alimentos podem ser preditores de piores condições de saúde na população que os consome com regularidade.
Essa teoria foi validada em diversos estudos em que o padrão observado foi que dietas ricas em ultraprocessados aceleravam o ganho de peso. Aqui, vale entender esse ganho de peso não como algo estético, mas como um parâmetro negativo para a saúde do indivíduo.
Nos diversos estudos analisados, esse padrão foi revertido com uma conversão para uma dieta que prioriza alimentos in natura, comida de verdade mesmo. Não existe uma atenção tão severa à tabela nutricional nesse tipo de abordagem, apenas um direcionamento geral para o que comer.
Foco no priorizar. Não é uma questão de demonizar um ou outro tipo de comida, mas apenas pensar de uma maneira um pouco mais holística. Numa alimentação equilibrada, em que o predomínio vem da natureza, como um prato de arroz, feijão e uma carne. E não de um laboratório, com ingredientes que mal sabemos pronunciar.
Ah, sobre o Soylent Green que eu tanto sonhei, acho bom revelar aqui o plot twist do filme: no final, é descoberto que a matéria-prima do Soylent Green era carne humana. O filme termina com a terrível revelação: SOYLENT GREEN ARE PEOPLE!
O site de jornalismo investigativo, O Joio e o Trigo, publicou uma reportagem (de autoria do João Peres) sobre uma ofensiva na FIESP (sempre ela) em defesa dos ultraprocessados. Um dos pontos chaves nesse conflito foi uma palestra do professor irlandês Mike Gibney, em que ele defende sua alimentação matinal.
O argumento dele era que o café da manhã dele era composto quase que exclusivamente por produtos ultraprocessados. Para saber, ele ajudou ilustrando com uma imagem e uma descrição do processo geral:
“Eu coloco duas colheres de aveia, quatro medidas de leite, ponho no micro-ondas, depois ponho iogurte e mel. Compro iogurte desnatado com sacarina e baunilha. É ultraprocessado. Meu café da manhã é totalmente ultraprocessado, mas eu considero extremamente saudável e não tenho a menor intenção de mudar isso.”.
Mas a parte que mais me surpreende vem logo em seguida. Após explicar como ele produz o que possivelmente é a refeição mais triste da história, ele diz que um dos motivos para ele se manter fiel a essa rotina é que “eu não saberia substituir”.
O professor de uma respeitada universidade irlandesa não consegue pensar em nenhuma outra opção para o seu café da manhã.
Talvez seja uma coisa cultural. Afinal, como brasileiro, talvez algumas pessoas também não saibam como substituir um bom pão de sal com manteiga. Mas caramba, nenhuma outra opção mesmo?
Ouvir isso me fez refletir e voltar um pouco no tempo.
Desde a história lá da Farinata do Dória, passei a me importar muito mais com alimentação. Meio que virou uma questão de honra tirar algum prazer da alimentação. E, claro, fazer isso de uma maneira saudável.
Com muito menos esforço do que achei necessário, consegui aprender algumas boas combinações de temperos e uma ou outra receita que guardo para ocasiões especiais.
No fim, percebi que meu problema com a comida era muito mais uma preguiça. Porque até acertar o ponto das coisas, morando sozinho, é um processo de tentativa e erro que nunca tem um fim muito claro. É um dia colocando muito sal, no outro ajustando e acertando, só para daí errar na pimenta. Ou será que o problema estava na pimenta?
De início é difícil, mas, cozinhando uma receita rápida 2 ou 3 vezes por semana, em um mês você não passa vergonha ao convidar amigos para almoçarem aquilo que você preparou. E, a melhor parte, é uma daquelas habilidades que não perdemos. Temperar bem o feijão é quase um superpoder moderno, muito mais acessível do que pensamos.
Só, por favor, não se renda aos temperos prontos.







