Esse dashboard fornece, em tempo real, informações de um grupo específico do meu WhatsApp. São contabilizadas métricas como “total de mensagem por usuário”, “linha temporal de mensagens”, “média diária” e outras coisas.
Toda mensagem que chega nesse grupo, eu limpo, tiro o que não precisa e, o essencial, guardo em em um banco de dados. Tudo em tempo real, todos os dias. E é esse banco que alimenta os gráficos.
Tudo isso não serve a nenhum propósito. Nenhum mesmo. Aliás, até meio que tem um. Todo dia, 19 horas, é feita uma consulta no banco, as mensagens das últimas 24 horas são recuperadas e é gerado um resumo do dia. Esse resumo é enviado diariamente.
Essa suposta utilidade prática foi criada depois que o dashboard já existia. Foi meio que o jeito que eu encontrei de dar razão pra todo esse trabalho. Por que a verdadeira razão é que eu sou viciado em dados. Especialmente aqueles que não têm nenhum propósito de existir.
É meio que uma falha de caráter minha perder algumas horas analisando bases de informações inúteis ou, pior ainda, construindo elas.
E, talvez, o sintoma mais forte do meu vício esteja em buscar isso não é bancos de dados, mas em qualquer marca que pessoas deixam na vida real. A utilidade de um registro está na sua capacidade de representar algo. Assim, talvez a melhor forma de obter essa informação, seja no desgaste natural que o uso inflige no mundo material.
Por exemplo, na academia. Quando você coloca um pino para segurar o peso em aparelhos, como por exemplo o CrossOver, ele gera um certo desgaste. Conforme pessoas vão usando mais e mais, o desgaste aumenta. Pronto. Você tem uma representação da distribuição de frequência para aquele aparelho. Quanto mais desgastado, mais comum é que pessoas usem aquele peso específico.
Essa imagem foi, talvez, uma das primeiras a chamar minha atenção para esse tipo de caso. E da um calor no coração ver que que essa variação segue uma distribuição normal, aquela em forma de sino.
Mais interessante ainda é ver que o peso 95 foge do padrão. As pessoas saltam dele e vão logo pro 100. O ego refletido na distribuição.
Esse tipo de situação até pode ter alguma utilidade prática. Por exemplo, em pequena escala, pode servir para algum tipo de planejamento de mobilidade.
Esse monte de terra afundando se originou ao longo do tempo com diversas pessoas passando sobre ele como atalho. Isso indica que esse é um ótimo lugar para se criar um pequeno calçamento.
Da pra fazer algo semelhante com campos gramados. Antes de se colocar um caminho calçado para as pessoas, apenas deixe tudo gramado. Depois de alguns meses, volte lá e veja quais percursos da grama estão mais amassados, com mais terra que grama. Essa presença da terra serve como um indicador de frequência, qual caminho foi mais usado pelos visitantes.
Dai fica fácil saber onde pavimentar.
Mas ok. Nem todo dado nasce com uma utilidade prática. Em alguns casos, sua presença serve mais como componente para explicitar um comportamento social. Como por exemplo a presença mais tímida de mulheres em escolas de engenharia.
Aqui, o desgaste na porta masculina indica que claramente ela é a mais utilizada. Porém, isso é algo que poderia ser constatado de maneira igualmente fácil olhando o número total de alunos matriculados agrupados por sexo. Ter essa informação visualmente posta no mundo real talvez nem seja um argumento tão forte. Talvez sua maior utilidade esteja em chamar a atenção para um dado que poucas pessoas iriam olhar.
Mas meio que tudo isso é exceção. Na maioria das vezes, o desgaste transmutado em dado não vai resultar em nenhum insight ou pista de algo maior. Na maioria, o desgaste é algo óbvio, ou cuja informação é tão irrelevante que nada vai poder ser extraído disso. Como a imagem abaixo.
Não leva nada a lugar nenhum. E nem deveria. Nem toda análise precisa de fato mudar ou melhorar a sociedade. Algumas vezes as coisas podem ser meio que sem um propósito maior. Um fim em si mesmas. Só uma nota de rodapé engraçadinha sobre a vida no dia a dia.
Tal qual esse texto.
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