Torço pro América Futebol Clube. Essa equipe joga atualmente pela Série B do Campeonato Mineiro. Tem baixa média de público e é provável que pouca gente fora do estado lembre que ela exista.
Deve ter pouca gente no estado lembrando.
Mas o estádio desse time fica relativamente perto da minha casa. Coisa de 30 minutos a pé. Os ingressos são baratos e os jogos tranquilos de entrar e sair.
Foi uma escolha cômoda. Não tem a ver com paixão, tradição familiar ou algum valor mais específico. Tem a ver com questões mundanas, de quem gosta de ver o esporte, mas não o suficiente para se estressar com isso.
Uma escolha de quem não liga muito para futebol.
Ainda assim, não consigo comprar o discurso de ódio e rejeição que acontece quando a copa se aproxima. Sou vítima muito fácil da empolgação generalizada. Ver ruas enfeitadas, bares cheios e pessoas gritando e comemorando juntas é algo que me pega fácil demais.
Ver todo mundo meio que dançando uma dança coreografada, vestir cores específicas, ver a mesma coisa, gritar na mesma hora. Gosto desse espírito que se tem em dia de jogo do Brasil na copa.
Ou do que se tinha…
No dia do jogo da estreia do Brasil na Copa, saí lá pela hora do almoço com minha companheira para ir no supermercado e dar uma volta no bairro. Comentei como adoro esse clima, ver as pessoas todas mobilizadas para um único fim.
Ela apontou que gostava, mas tínhamos que reconhecer que essa sensação estava cada vez mais no passado. Até tinha filas do supermercado abarrotadas de pessoas comprando cervejas e tira-gostos. Mas o clima geral não parecia andar nessa direção. Não tinha enfeite, bandeirinhas ou pinturas. As pessoas andavam com roupas casuais. Ok que o jogo seria apenas às 19 horas, mas um pouco de animação prévia não mata.
Sou da tese de que a percepção pessoal engana. Mas, nesse caso, me parece que a afirmação era correta.
Luiz Antonio Simas tem uma (várias, mas para esse momento, Ruas Enfeitadas) ótima crônica em que ele relata esse mesmo lamento. Essa mesma falta de um espírito único tomando conta de toda a multidão. O fim das ruas enfeitadas. Ele sintetiza bem dizendo que “a rua como lugar de encontro vem perdendo de lavada para a rua como lugar de passagem”.
E ele escreveu isso em 2020.
Foi assim que me vi obrigado a aceitar que os dias de jogo do Brasil em Copa do Mundo estão deixando de ser aquilo que chamo de “dias síncronos”.
O termo não quer dizer muita coisa. A ideia é que existem dias em que toda a sociedade parece caminhar no mesmo ritmo. Você não precisa parar ninguém na rua para perguntar o que ele anda planejando para o dia.
Um exemplo clássico é o dia 31 de dezembro. Até o fim da manhã, todas as pessoas estão indo fazer compras de última hora. À tarde, lá pelas 18 horas, as ruas ficam desertas, dar uma volta na cidade e você corre o risco de não cruzar com ninguém. E o movimento volta no fim do dia, quando as pessoas se deslocam para seus compromissos.
Uma pessoa com vista para algum prédio residencial pode constatar que qualquer luz que ainda esteja acesa sedia o mesmo tipo de evento. O jantar de fim de ano.
Dia de jogo na copa costumava ser isso. Não importa se você torce para o Atlético ou para o Cruzeiro. Aliás, pouco importa se você torce ou mesmo se gosta de futebol. Quem não gosta de uma boa desculpa para se reunir com amigos certamente não tem amigos para se reunir.
E é justamente esse sentimento, de sociedade sincronizada num balé da rotina, que se perdeu.
É sobre esse tipo de dia que você pode se sentar numa mesa de bar e perguntar “o que você estava fazendo no dia de tal coisa?”. Dá pra fazer esse questionamento e ter respostas sólidas porque é assim que esse tipo de data funciona. Todo mundo fazendo a mesma coisa.
Digo isso porque me lembro exatamente de onde vi cada copa, de 2002 até 2022. E lembro em especial onde vi o último jogo do Brasil em cada ano. “Onde você estava durante o 7x1?”.
Falando no 7x1, alguns diriam que foi ali que começou a se perder a sincronicidade. Até porque, a sincronicidade já tava se perdendo antes. Mas uma Copa do Mundo no Brasil era justamente o remédio para isso. Impossível não se empolgar.
Ok, não é impossível. A hashtag #naovaitercopa fez muito sucesso entre as pessoas mais engajadas nos debates políticos da época. Sem julgamentos.
Mas a verdade é que, mesmo com esse clima de protesto que rolou antes, teve copa sim. Teve muita copa. Copa demais. Até aquele dia…
Talvez o contraste entre a animação de copa em casa e uma derrota tão vergonhosa seja o que sepultou de vez o espírito “dia de jogo”.
Honestamente, não sei como perdemos isso. E nem sou a pessoa certa para pensar sobre isso. Luiz Antonio Simas escreveu, no mesmo texto que lamenta a mudança de valores das ruas, sobre como elas também perderam as cores. Apontam como os jogadores atuais se colocam em um patamar quase que sobre-humano.
É uma boa teoria. A verdade é que não me importa muito a razão. Talvez seja simplesmente a falta de esperança em uma vitória. Ou muito tempo sem ganhar uma copa. Falta de carisma dos jogadores? Vai saber.
De qualquer forma, me resta reunir com amigos, comemorar e torcer para que, futuramente, esse tipo de data volte a ser algo síncrono na sociedade.

