O título dessa newsletter é bem direto sobre o que ela se trata. Mas, no fundo, esse texto não é sobre rituais. Para chegar lá, vamos começar do começo. Bem do começo, nos meus 10 anos.
Eu costumava ter um grupo de RPG quando era mais novo. Bem mais novo, numa idade em que não havia obrigações suficientes para manter um grupo de 4 garotos ocupados em uma noite de sábado.
Sem festas, sem compromissos sociais, sem muita responsabilidade.
Nos reuníamos sempre na mesma casa, que ficava uma rua atrás da minha. Era um bairro relativamente calmo, então não era nada absurdo algumas crianças perambularem alguns metros no meio de uma noite de sábado.
Porque, sim, acontecia todo sábado. Ok, talvez “todo” seja um exagero da minha memória, mas foi algo que durou alguns anos, desde meus 10 até os 12, quando mudei de cidade.
Desde então, passei muitos anos sem ter uma relação muito próxima com o RPG de mesa. Joguei esporadicamente com alguns grupos, mas nada que tenha ido para além de 3 seções. E é engraçado, na época era uma certa luta para aquilo acontecer.
Meus pais (e os de outros do grupo) não aprovavam muito a ideia. Isso acontecia no início dos anos 2000. No mesmo período, em uma cidade a uns 200 km de distância, aconteceu um assassinato que, na época, a polícia culpou uma partida de RPG. Foi puro pânico moral, o jogo foi uma desculpa para o trabalho mal executado da polícia.
Mas isso não importou muito na época, ficou essa sombra de que aquilo era algo ruim, errado. A venda de livros do sistema que os acusados jogavam foi temporariamente proibida no Brasil.
Agora tenta explicar para sua mãe que você vai sair de casa, às 20 horas da noite de sábado, para se reunir num porão com outras pessoas para jogar o jogo que causou a morte de uma pessoa? Boa sorte.
Apesar disso, acontecia e funcionava. É até meio engraçado como hoje, com internet, o recente boom dos RPGs de mesa graças a Stranger Things, Vox Machina e fóruns online, daria para pensar que seria mais fácil. Tem menos atrito, mais recurso e agora a publicidade é positiva.
Obviamente, isso não acontece porque a vida adulta não deixa. Os compromissos são outros, cada pessoa no grupo pode ser vítima dos mais diferentes imprevistos, e ficar interpretando personagens ao invés de encontrar amigos em um bar tem um apelo diferente quando se tem mais de 30 anos.
Daria para elencar ainda outros motivos, mas não estou muito preocupado com o diagnóstico. As consequências é que me entristecem.
Existia uma certa segurança na minha noite de sábado. Era aquela coisa que eu sabia exatamente o que ia acontecer, quando e como. Era algo que eu gostava e que, durante a semana, eu ansiava.
Quando se é criança e poucas coisas estão no seu controle, esses momentos são bem raros. Mas, mesmo adulto, ainda fazem falta. E por isso acho que esse tipo de ritual seja algo que merece estar na vida das pessoas.
Quando jogava profissionalmente, o tenista Rafael Nadal tinha um ritual muito específico para toda partida. Começava simples, com um banho gelado antes, e ia evoluindo. Ele sempre entrava na quadra com a raquete em mãos, cuidando para, ao cruzar uma linha, nunca pisar sobre ela e sempre com o pé direito. Seu cartão do torneio sempre tinha que ficar virado para cima no banco e a cadeira perfeitamente perpendicular com as linhas.
O processo ainda inclui a maneira como ele bebia água, pular durante o lançamento da moeda e mais uma infinidade de coisas que vou poupar o leitor.
É provável que nada disso tenha sido responsável por fazer dele o melhor tenista do mundo. Afinal, ele repetia esse processo com muito cuidado, mesmo quando perdia. O que, aliás, fez com que ele desconsiderasse isso como uma superstição.
Alguns chamam de superstição, mas não é. Se fosse superstição, por que eu continuaria fazendo a mesma coisa sempre, independente de vencer ou perder? É uma maneira de me colocar na partida, ordenando meus arredores para a mesma ordem que eu busco na minha cabeça.
Esse tipo de comportamento corresponde ao que é descrito como “comportamento ritualístico”:
São ações estereotipadas que parecem indispensáveis (elas precisam ser performadas), ainda que não tenham um resultado causal claro.
(Aliás, essa definição é dada pelo antropólogo Dimitris Xygalatas no seu livro Rituals, sem tradução brasileira. Boa parte do que falo sobre rituas em nível acadêmico tirei de lá e recomendo a todos que queiram se aprofundar. A história do padre que descobriu que nunca foi batizado vale o livro inteiro.)

Competições esportivas costumam ser estressantes, muita coisa passando na sua cabeça ao mesmo tempo. A ideia dele era a de criar uma forma de controlar todo esse caos. Obviamente, muito do que criava essa situação caótica não estava no controle dele. Mas, ao ter uma rotina tão definida, quase que religiosa, ele conseguia se dar algum controle.
Claro, esse controle adquirido por uma rotina repetida à exaustão é apenas uma miragem. Na realidade, o caos ainda está lá. Mas, para o cérebro, isso pouco importa. Esse efeito placebo ajuda a acalmar justamente nas situações de maior incerteza, quando menos podemos fazer algo para mudar a realidade.
Disso, dá para dizer que duas coisas ajudam na criação de um ritual: o estresse e a incerteza. Pessoas com vício em apostas tendem a cumprir esses dois requisitos, e é comum que tenham rituais específicos para lançar dados ou escolher em qual cavalo apostar, por exemplo.
Situações mais trágicas, como regiões em guerra, têm efeito semelhante.
Para confirmar a relação, um estudo realizado em 2015 estudou o movimento corporal em grupos de participantes divididos para observar um objeto e realizar, cada um, uma tarefa distinta. Um grupo iria escrever um relatório sobre o objeto e entregar. Já o segundo, iria fazer o mesmo relatório, mas, ao invés de entregar, iria apresentar para um grupo de voluntários.
A ideia é que falar em público para um grupo de desconhecidos seria uma atividade que induziria o estresse. O que se observou foi que, nesse segundo grupo, a pessoa responsável pelo discurso apresentava uma série de movimentos repetitivos quase como um ritual.
Quando comentei que minhas partidas de RPG eram uma das poucas coisas que eu, como criança, tinha algum controle, foi um sentimento nessa direção. Todas as semanas, em pelo menos um momento, independente das incertezas do mundo, fazia minha caminhada até a rua de trás e me reunia com meus amigos para algumas horas fazendo algo que escolhemos.
Apesar dessa realidade estar muito atrás, ainda encontro esse sentimento todo dia de manhã. Sempre acordo, preparo café em uma cafeteira italiana e, enquanto fica pronto, encosto na janela da cozinha enquanto como uma mistura de aveia, granola e frutas que preparei na noite anterior.
Esses minutos que passo lá, todas as manhãs, talvez não configurem um ritual na definição mais estrita da coisa, mas considero algo absolutamente positivo na minha rotina. São nesses minutos, em silêncio, olhando para o céu, que realmente acordo. E é ali que organizo meu dia (ou um rascunho, pelo menos).
Penso sobre as tarefas do trabalho que tenho para resolver, os deveres da vida adulta que precisam ser feitos ou talvez qual filme vou assistir à noite. Às vezes essa lista de tarefas serve para nortear meu dia. Muitas outras vezes, serve mais para ligar meu cérebro de manhã. Independente do efeito, naquele momento o mundo adulto não parece tão caótico e confuso.
É claro, não existe nenhuma relação entre esse meu ritual matinal e o quão bom e organizado vai ser meu dia. Não faço isso porque acredito numa possível causa e efeito. O que é comum desse tipo de coisa. As ações ritualísticas têm uma casualidade opaca. Pode até ser que Rafael Nadal ganhe a partida após fazer todas as etapas da sua rotina, mas também pode perder.
E isso não importa muito.
Porém, no estudo acadêmico, existem algumas exigências para que um ritual seja, de fato, um ritual. Isso serve principalmente para pesquisa. Afinal, se não houver uma delimitação clara do que é, fica complicado analisar suas implicações.
A saber, três fatores são esperados de se encontrar em um ritual: rigidez, repetição e redundância.
A rigidez implica que a sequência esperada deve ser seguida à risca. Não existe espaço para adaptação ou alteração. Pense em como uma missa religiosa tem cada etapa sua muito bem definida.
Nos casos que proponho, isso nem sempre é verdade. Não existe uma delimitação exata se eu devo colocar o café antes ou depois de tirar minha aveia adormecida da geladeira. A única parte obrigatória é o ritual em si. O que já é alguma coisa.
Já a repetição, no ritual, é mais severa. É o processo de percorrer todo o terço e repetir a mesma oração diversas vezes. Para meu caso específico, também a repetição consiste apenas em refazer a mesma coisa sempre no horário pré-determinado.
É como pisar na grama. Quando cruzamos um campo com mato alto, amassamos parte do gramado no processo. Mas, após alguns minutos, ele voltou ao normal. Um desavisado nem saberia que estivemos ali, muito menos qual caminho tomamos. Porém, repetindo isso todos os dias, sem parar, eventualmente criamos um caminho permanente.
Curiosamente, essa é uma maneira de determinar onde calçar trechos de caminhadas em parques.
Refazendo a mesma coisa em momento específico, acabamos internalizando aquilo, vendo não como um conjunto de subtarefas (pegar a aveia, preparar a cafeteira, ligar o fogão…), mas como uma única tarefa (comer aveia enquanto espera o café e pensa na vida).
Por fim, a redundância é um pouco menos encontrada nos rituais do cotidiano e se confunde um pouco com a repetição. É algo mais próximo de uma ação que pode ter um nexo causal, mas é repetida mais do que o necessário. Como alguém que sente a necessidade de lavar a mão especificamente 3 vezes quando vai ao banheiro.
Já vi alguns casos em que esse último fator existe nos rituais modernos. Como pessoas que escutam sempre o mesmo podcast, no mesmo horário, duas vezes seguidas. Não por não prestarem atenção ou para melhor reter a informação, apenas pelo hábito.
Diante dessa explicação engessada, talvez o que eu esteja descrevendo não seja rituais no sentido acadêmico da palavra. Para todos os efeitos, vou chamar de “rituais da vida moderna” para dar a correta ideia de que é a mesma coisa, mas diferente.

Nos rituais da vida moderna, os elementos definidos acima nem sempre estão presentes. Talvez um pesquisador optaria por, corretamente, descartá-los de uma análise mais profunda sobre o tema. Apesar disso, acredito que alguns dos benefícios ritualísticos ainda podem ser encontrados lá.
Aproveitando essa maleabilidade, vou tomar a liberdade de lançar mais uma definição nesses rituais modernos: eles são um fim em si mesmo.
Todo domingo à noite, assisto, com minha namorada, a um filme de terror. Preferencialmente um que nunca vimos. Não existe motivo nenhum para isso. Não é uma celebração do fim de semana acabando ou um lamento da segunda chegando.
Em algum momento, repetimos isso algumas semanas seguidas e acabamos internalizando isso. Não foi preciso que houvesse um propósito, apenas deixamos o hábito ser construído.
Não temos intenção de zerar alguma lista nem queremos aumentar os números do Letterboxd. O ato de fazermos aquilo é toda recompensa que precisamos.
Coloco isso apenas para diferenciar esses rituais de coisas com objetivo demarcado, como ir à academia ou frequentar algum curso toda semana.
Esse tipo de coisa talvez não combine com os tempos atuais, em que tudo é para ontem. Um jogo é lançado hoje e semana passada já se esgotou o assunto quando diversos jornalistas, podcasters e influenciadores que tiveram acesso antecipado monopolizaram a pauta.
Talvez meu exemplo favorito disso seja a maneira como consumimos seriados atualmente. Antes, quando os episódios eram lançados de maneira espaçada, tínhamos alguns dias para digerir cada novo acontecimento. Podíamos debater os conflitos, teorizar o que estava por vir e talvez até rever para pegar algum detalhe.
E, depois de tudo isso, com toda a expectativa criada, nos sentávamos, normalmente no mesmo horário e local, para ver mais um episódio. Não raramente, isso se tornava uma experiência coletiva. Momentos como bares lotados vendo episódios de Game of Thrones parecem parte de um mundo que não existe mais.
O streaming popularizou o binge watching, a terrível moda em que ganha quem assiste tudo primeiro. Deixar para depois pode te deixar sem ninguém para conversar.
E esse estilo vem mudando. Cada vez mais, seriados voltaram ao modelo de lançar um episódio por semana. Saudável, claro. Mas parte do estrago já está feito. Muita gente ainda prefere esperar sair tudo e assistir de uma vez.
Sem julgamentos. Minha defesa pelo ritmo mais lento é, em partes, por achar que isso permite apreciar mais a obra. Sem saturar, assistindo 7 horas da mesma história, numa maratona. Outro argumento é que, aos poucos, a obra vai crescendo. Criar a expectativa semanal ajuda a pensar naquilo, enraizar melhor a experiência.
Motivos assim me fizeram nadar na corrente contrária. Mesmo com seriados antigos, ainda gosto de consumir um episódio por semana. Além de me dar mais tempo com aquele mundo, também me permite acompanhar alguns seriados por vez.
No fim, esse desejo por um mundo em que rituais modernos existam é também uma vontade de um mundo mais lento. Sem muita pressa, em que as coisas não precisam ser nem pra ontem nem pra amanhã, mas para o horário que é delas.
É mais ou menos a lógica de um amigo que adorava café, comprou máquinas para poder fazer o melhor café sem precisar da intervenção humana. Mas, no fim, o que ele realmente gosta é parar e, por 10 minutos, passar o café. Abrindo mão da eficiência e agilidade para estar presente naquela situação.
Entender isso como um ritual dentro do seu dia ajuda a ver isso não como uma perda de tempo, mas como uma etapa muito necessária para ter controle em um mundo em que isso raramente é possível.
Esse texto não é sobre rituais. Prometi isso no começo e acho que ficou claro nos últimos parágrafos. É sobre fazer algo sem um motivo maior. Não é ler um livro para postar no Instagram ou jogar um jogo para registrar no Backloggd.
É sobre tirar uns minutos para relaxar, deixar a mente vagar e, quando um pensamento criativo ocorrer, não ir logo colocá-lo no Xwitter/Bluesky/Threads.
Usei os rituais da vida moderna como exemplo, mas às vezes é só um hábito, ou talvez um costume que te desliga das coisas e você faz por fazer. Eu excluí academia dos rituais pelas definições que coloquei, mas ela também se encaixa nisso. Afinal, é um ótimo ambiente para se desligar das coisas e aproveitar alguns momentos de descanso mental.
Em um mundo em que tudo precisa ser quantificado, metrificado e exposto, talvez esse seja um bom antídoto.
No fim, é sobre ter momentos para desacelerar. Seja fazendo o que você gosta ou mesmo não fazendo nada. Se prender a um momento só pelo prazer dele.
Desde que meu grupo de RPG acabou, muitos anos atrás, nunca mais tive outro. Mas acabei, por acidente, criando alguns outros rituais. A maioria veio sem planejamento.
Mesmo o tema final do texto não sendo rituais, ainda gosto deles. E, por isso, para fechar isso, algumas coisas que eu faço diariamente, no que poderiam ser considerados rituais modernos:
Todo domingo de manhã faço panquecas. Começou do nada. Um dia, acordei cedo, com vontade de algo para o café e vi que tinha todos os ingredientes. Fiz num domingo. No seguinte, ainda tinha alguns ingredientes e repeti. No sábado seguinte, comprei tudo que faltava para garantir e assim foi.
A única mudança que esse ritual ganhou com o tempo é que, agora, enquanto comemos as panquecas, eu e minha namorada jogamos algumas partidas de Senha.Quinta-feira, 19:30, saio andando pelo bairro, sento no primeiro bar que nunca sentei antes, peço uma cerveja e algo para comer. No início, tinha acabado de mudar de bairro e queria muito conhecer a região. Para ajudar na minha exploração, decidi separar as noites de quinta para andar.
Descobri que bares são ótimos lugares para sentar e conhecer a comunidade local. Quase um ano depois, já tendo aprendido o nome de todas as ruas, ainda mantenho essa caminhada. Às vezes repito (os bares estão ficando cada vez mais distantes), boto o papo em dia com algum garçom velho conhecido e volto para casa.Para além de seriados atuais, mantenho sempre em rotação algum seriado velho. Velho mesmo. Atualmente é Columbo, que se iniciou na década de 60, sobre um detetive que não tem uma grama de prepotência no corpo.
É um seriado de “caso da semana”, que não chega a lugar nenhum, sempre resetando para o status quo entre um episódio e outro. Nada de uma trama maior movendo a temporada. Um prazer assistir a cada episódio.Todo fim de mês, lá pelo dia 25, escolho um tema para o mês seguinte, mando para grupos de amigos, e eles me ajudam a escolher 5 ou 6 jogos dentro daquele tema. Me ajuda a escolher o que vou jogar, mas curiosamente isso meio que conquistou ele.
Quando atrasei no ritual por motivos de força maior, vieram saber por que estava demorando. Imagino que funcione bem para outros hobbies, como filmes ou livros, a depender do interesse do grupo.
E, se ao fim de tudo isso, lembrou algum ritual ou simplesmente um hábito que mantem com alguma regularidade, seja a dois anos ou duas semanas, não deixe de compartilhar.




